“Hora do Recreio” transforma a sala de aula em palco de resistência e esperança
Murat conduz o documentário com discrição e firmeza
Por: Mariana Gomes
Foto: Divulgação


Premiada na 75ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim com a Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14plus, “Hora do Recreio”, novo documentário de Lúcia Murat, reafirma a potência de um cinema que escuta antes de falar — e que faz da escuta um gesto político.
Escrito, produzido e dirigido pela cineasta, o longa mergulha nas entranhas da educação pública brasileira a partir das vozes de estudantes do ensino fundamental II e médio do Rio de Janeiro. Mais do que um diagnóstico sobre evasão escolar, racismo estrutural ou violência urbana, o filme constrói um espaço de expressão em que os jovens deixam de ser estatística para se tornarem protagonistas de suas próprias narrativas.
Com a sensibilidade que marca sua filmografia, Murat conduz o documentário com discrição e firmeza. A câmera não invade — acompanha. O resultado é um retrato honesto e profundamente humano de uma geração que cresce sob o peso de desafios socioeconômicos severos, mas que encontra na arte e na coletividade caminhos de elaboração e resistência.
Um dos momentos mais impactantes do filme é a encenação inspirada em “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto. Ao dramatizarem a trajetória da jovem negra suburbana — aqui vivida com intensidade por Brenda Viveiros —, estudantes conectam a literatura clássica às suas próprias experiências nas comunidades. O gesto é simbólico: o passado literário dialoga com o presente social, evidenciando como certas estruturas de exclusão persistem, ainda que sob novas formas.
A participação de jovens ligados a coletivos e grupos emblemáticos como o Nós do Morro, o Grupo de Teatro VOZES e o Instituto Arteiros amplia a força simbólica da encenação. São corpos e vozes que já carregam a experiência do palco como instrumento de transformação social — e que aqui encontram no cinema uma extensão dessa prática.
“Hora do Recreio” não ignora temas espinhosos como tráfico de drogas, violência armada, feminicídio ou gravidez precoce. Pelo contrário: encara-os com franqueza, mas sem recorrer ao sensacionalismo. O mérito do documentário está em equilibrar denúncia e afeto, indignação e esperança. Ao abrir espaço para o debate coletivo, Murat sugere que a escola pode — e deve — ser território de pensamento crítico e construção de identidade.
Após circular por importantes festivais, como o É Tudo Verdade, e mostras na Argentina, França, Itália e Alemanha, o longa consolida-se como uma das obras documentais brasileiras mais relevantes do período. Também indicado ao prêmio de Melhor Documentário em Berlim e ao Prêmio da Anistia Internacional, o filme reafirma a vocação de Lúcia Murat para um cinema comprometido com as urgências do seu tempo.
Em “Hora do Recreio”, o intervalo entre uma aula e outra deixa de ser pausa. Torna-se metáfora de um país que precisa, urgentemente, reaprender a ouvir seus jovens — e reconhecer neles não o problema, mas a possibilidade de futuro.
